A Filosofia Africana – Aproximações III
Possui a editora L’Harmattan (Paris) um espólio de livros – e de revistas e material audiovisual – dedicados a África riquíssimo (32,83%, segundo números da própria casa) nos mais variados domínios, e filiais em vários países africanos e na Europa. Nesta, a filial italiana (mas com textos, em muitos casos, redigidos em português) tem variados livros dedicados aos denominados PALOPes; mais importante ainda, os seus autores, em diversos campos científicos, publicam aquilo que, devido à particularidade da editora, de outro modo ficaria circunscrito ao universo das faculdades, a publicações especializadas conhecidas apenas de alguns, ou ainda na gaveta. 
Entre as suas colecções, destaca-se uma com o título de «Lusitanica» (título infeliz e a ocultar algum bom pensamento e reflexão) dirigida por Luca Bussotti e o Professor e Filósofo Severino Ngoenha. É dele que cito, nesta série, um excerto de O pós-colonialismo na África Lusófona-O Moçambique Contemporâneo (pp. 12-13):
«[...] devemo-nos precaver das ideologias hegemónicas reemergentes, devemos também estar atentos às ideologias das “mãos limpas” e das nostalgias românticas – já denunciadas por Wole Soyinka no romance “Os Intérpretes” – que levam certos filósofos e historiadores africanos a fecharem-se numa análise afro-purista ou inocentista da história. A história deve levar os conceitos puros a se incarnarem na complexidade das diferentes experiências. Neste sentido, a filosofia, a partir de uma real adesão ao concreto, faz corpo com um devir histórico e incentiva as avaliações dos engajamentos éticos e existenciais. [...]
Ora, se pensarmos que a filosofia como discurso crítico emerge em África só na década de setenta, enquanto a busca da liberdade nas suas diferentes formas – pela emancipação da escravatura, pela integração social dos negros nos países ditos do novo mundo, pela auto-determinação política e pelo desenvolvimento económico e social – datam do encontro e das relações assimétricas que se estabeleceram com o mundo ocidental, então pode parecer que exista uma discrepância histórico-cronológica entre a busca da liberdade e a sua conceptualização filosófica. Digo parece, porque se olharmos de perto para a filosofia africana crítica, como ela emerge no pensamento de Eboussi Boulaga, Marcien Towa, Paulin Hountondji damo-nos imediatamente conta que ela foi precedida e de certa maneira condicionada nas suas primeiras orientações pelo movimento literário-cultural da negritude, que aliás Marcien Towa identifica com a etnofilosofia. Por sua vez, o movimento da negritude depende da viragem de perspectiva que se operou na antropologia dos anos trinta – quanto ao estatuto das culturas africanas – mas sobretudo da influência que os escritores do movimento do Harlem Rennaissance exerceram sobre a geração dos Senghores, Cezaires e Damas.»
Imagem: Kara Walker, Authenticating the Artifact, 2007



