Ogros

Viagem ao mundo fantástico dos ogros angolanos

(transcrevo c/a devida vénia)

Américo Correia de Oliveira*

“Criadores de chefias, assimiladores de culturas, formadores de exércitos com jovens de outras populações que iam integrando na sua caminhada, parecem apenas uma ideia errante, cazumbi [espírito] antecipado da nacionalidade.” (Pepetela[1])

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Em boa hora, Mário Tendinha decidiu recriar pictoricamente[2] o mundo dos ogros (monstros predominantemente antropófagos) da tradição oral angolana. Fê-lo, numa primeira fase, com algumas telas, nunca expostas. Agora, vai realizar uma obra, em grande, para ser exposta na sua terra natal (Namibe) e em Luanda. Concedeu-nos a honra, − mas sobretudo às imensas e ricas estórias angolanas de ogros − de, a partir da nossa recolha[3], recriar esteticamente o universo fantástico dos ogros angolanos.

Pediu-nos um pequeno texto explicativo. Ei-lo:

Iniciar uma viagem ao mundo dos ogros, referenciados nas narrativas tradicionais angolanas, é realizar um percurso iniciático, porque propiciador de um mergulho nas profundezas da “mãe-terra” (a grande ogra), útero originário, de um “regresso às origens”, à “caverna da grande máscara do primeiro antepassado”. Comportando o risco de uma desintegração no caos primevo, é, porém, condição imprescindível para o renascimento cultural, porque constitui lugar único de confrontação/superação de fantasmas, individuais e colectivos, factores do crescimento e maturação.

A sugestiva riqueza desta temática, suscitando lembranças do nosso primeiro imaginário (do “homem do saco”, papão português, cu(o)ca/papa-gente brasileira; do “di/makishi” angolano aos ogros de todo o mundo), não deixa de representar uma matéria complexa, mas permanentemente lúdica, jocosa e educativa: – “Provavelmente, o homem só produz monstros por uma única razão: poder pensar a sua própria humanidade.”[4]
O ogro, assumindo designações diversas, perpetua-se como personagem em que se continua a investir, no domínio da tradição oral, da escrita e dos multimédia[5], talvez, porque, no plano simbólico, continue a assegurar um “jogo opositivo” entre o idêntico e o diferente, o eu/nós e o outro(s), uma eterna “viagem” iniciática: o ser humano para encontrar/manter a sua identidade necessita de outrar-se (devoramento), num permanente “vai e vem”, de faz-de-conta, entre o saudoso “útero materno” (a mesmidade) e a infernal “bocarra ogresca” (a alteridade).

Será possível, de modo sucinto, delinear o figurino do ogro angolano?

É “alma do outro mundo” para os Cabindas, kúiu (fantasma) para os Bakongo, tshingandangari (fantasma-caçador) para os Tucokwe, “kisi” (monstro antropófago) para os Ambundu, Ovangangela, Ovanyaneka, Ovimbundu, Ovahelelo e Ambo.

O ogro é pai e tirano, mãe e madrasta, feiticeiro e curandeiro, guardião de locais sagrados e “fiscal” nas encruzilhadas, fautor de miséria/morte e fonte de riqueza/vida… é kazumbi, espírito dos antepassados, que se metamorfoseia em pessoa, animal, ou outra coisa qualquer, porque senhor da vida e da morte, liberto da efemeridade terrena…

Viaja pelas florestas do Norte, atravessa todo o Litoral (sub)urbano, para regressar às chanas do Leste, percorrer o planalto Central e o desértico Sul… é rei do fundo dos lagos, senhor dos rios e dos mares…

… e não dizem que é kianda -sereia do Mussulo, fazendo amor entre os rios (se o Kwanza nos contasse!) e o Oceano, acalentando no seu colo a bela Luanda?

O ogro é, de facto, cazumbi condenado a viver longe e perto dos seus, com o amor e o ódio de que só os “génios” são capazes.

Ninguém lhe consegue fugir, porque seduz na proporção da sua fatalidade.

E o destino pertence, algures, a(os) deus(es), em Angola, aos antepassados…

Estaríamos, de novo, de volta à matriz, ao antepassado, ao sagrado, de multíplices hierofanias. Neste nó, convergiriam os vectores semânticos dos étimos kixi[6] e monstro[7]: o ogro como ser lúdico (espectáculo só para “viajantes”) e iniciático (itinerário de aprendizagem), enfim a desmesura da nossa perdição e a medida da nossa contenção, fronteira de todos os excessos e de todos os constrangimentos.

Como os filósofos gregos, para quem a viagem era a procura da sabedoria[8], o povo angolano, gerador de ogros de todas as espécies, atravessou florestas, savanas e desertos, cruzou rios, lagos e oceanos, misturou, com amor e raiva, o seu sangue com o de povos tão diferentes e aprendeu, no seu deambular contínuo: – que há monstros bons e maus, dentro e fora de si; que tem de exterminar uns e conservar outros; e que o monstro presente só se vence com auxílio do monstro, passado e futuro…

[1] Pepetela, “Entrevista”, in Jornal de Letras, 1990.10.02, p. 7.

[2] Veja-se o texto dramático, elaborado a partir duma narrativa tradicional angolana, de J. Mena Abrantes, Mandyala ou a tirania dos monstros, (Luanda, UEA, 1992), tendo como tema um herói (“Ndala”), defrontador de ogros.

[3] Oliveira, Américo, Do imaginário africano. Os ogros na tradição oral angolana, Leiria, Magno, 2001.

[4] Gil, José, Monstros, Quetzal Editora, Lisboa, (1994:56).

[5] Veja-se o êxito das várias versões do filme Shreck (Shrek. EUA, 2001).

[6] Uma das definições mais elucidativas do lexema cixi é-nos dada em Língua Cokwe: “Cixi: (mu-; a-) ou (mu-; mi-) 1. Dançarino mascarado. (Designação genérica. Antigamente era considerado a encarnação de um espírito [...])”. (Barbosa, Adriano, C., Dicionário de Cokwe-Português, Universidade de Coimbra, Coimbra, 1989, p. 43.

[7] “Monstrum, i, n. termo do vocabulário religioso, prodígio que revela a vontade dos deuses; por conseguinte, objecto ou ser de carácter sobrenatural.” (Ernout, A. & A. Meillet, Dictionnaire Étymologique de La Langue Latine. Histoire des Mots, Klincksieck, Paris, 1939, p. 62

[8] “A tartaruga [...] jogou a cabaça da sabedoria no chão, perto do tronco da árvore, fazendo-a em pedaços. Depois disso a sabedoria do mundo espalhou-se por toda a parte em pequenos bocados, e todos podem encontrar um pouco dela desde que a procurem com muita diligência”. (In “A Tartaruga e a Sabedoria do Mundo” (Nigéria), apud Carey, M., Contos e Lendas da África, S. Paulo, 1981, p. 44).

* Professor no ISCED-Lubango/Universidade Agostinho Neto/Centro de Língua Portuguesa/Instituto Camões.

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Contemporary Artwork by Mario Tendinha

~ por casoual em Fevereiro 11, 2008.