Paul Bowles – III
«É de esperar a dissolução da civilização europeia, que será substituída, não se sabe por qual, mas, seja ela qual for, temos de preparar-nos e perceber esta mentalidade.
«Penso que o continente africano desempenhará o seu papel. E como Tânger é a porta de entrada de África e, ao mesmo tempo, a saída da Europa, tomaremos consciência disso aqui. Estamos, portanto, bem posicionados em Tânger para ver o que sucederá. Não o verei, mas vê-lo-ão outros.
«Não escolhi instalar-me em Tânger. Aconteceu. Devia ser uma estadia breve. Queria continuar, indefinidamente. A preguiça fez-me adiar a partida.
«Um dia, tive de render-me: o mundo estava muito povoado, os hotéis eram menos bons, as viagens menos agradáveis e as paisagens menos belas. Quando estava noutro sítio, lamentava não estar em Tânger.
«Estou aqui porque cá estava quando percebi a que ponto o mundo piorou. Já não queria viajar mais.»
Tradução de Carlos Sousa de Almeida
Imagem: Henri Matisse, Fenêtre sur Tanger




