«De Rios Velhos e Guerrilheiros – O Livro dos Rios»

«5. No fecho deste primeiro dos três livros anunciados, despertado o narrador do sono/sonho no barco paterno, o autor escreveu: “O Ndalagando naufragou na memória; rio acima da minha estória, o Kwanza rodeia a pátria da nossa luta; missão, agora, era lhe dar encontro no princípio desse rio, nos seus três fios de água, lá nas altas serras do Bié – onde o mundo acaba e todas as águas começam.”

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O Cuanza, reservatório semiótico desta escrita de palimpsesto, deixa que nas suas caudalosas águas se escreva e se apague a crónica da temporária vitória portuguesa de Massangano, e sobre elas se reescrava a história começada no “dia que Agostinho Neto foi em Massangano – relâmpago dos óculos; palavra d’ordem caté Kunene; e estrela na bandeira rubinegra…” (p. 21), prenunciando o MPLA como vanguarda da luta pela independência de Angola, “Leitmotiv”, afinal, de toda a obra literária luandina. Esta, “De Rios Velhos e Guerrilheiros”, reencontrando-se também com esse móbil, revisita agravos do tempo colonial, da escola à prisão ou à angariação de contratados (p. 115), parabolizados na estória de “A Guerra dos Fazedores de Chuva com os Caçadores de Nuvens” (pp. 91-96), mas traz a narrativa para a pós-independência, através duma bela e actualíssima metáfora concebida à volta do rio Luandu “que é tigre do nosso eufrates Cuanza”, a fim de que o autor possa recordar os poetas do pan-africanismo e reafirmar com eles, em especial com Langston Hughes e com Agostinho Neto, o seu compromisso literário e a sua identidade política e cultural com a africanidade:
“Só que, no hoje e aqui do meu rusgado coração, não aceito vau de tabucar: nossos rios semearam filhos nos alicerces do mundo – dessas lavras de sangue exigiremos sempre a limpa chuva de suas lágrimas… (mas ouvi o canto dolente ainda o meu canto no Kwanza Amazonas a minha tristeza o transbordar do Grande Nilo sons do Mississipi dia que Agostinho Neto despediu connosco: era Setembro, meus pés se incharam de lágrimas nos pambos da vida – mas nunca que chorei estrela caída de nossa bandeira rubinegra)” (pp. 98/99).

6. Aguardemos, então, os outros dois livros desta trilogia, para uma leitura mais completa e certamente mais probatória desta escrita do nosso reencontro com um autor de referência das literaturas africanas de língua portuguesa.»

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: rio Cuanza

~ por casoual em Abril 30, 2007.